Foto: Agência Brasil

JC Online

O Atlas da Violência 2018 informa que o número de mulheres assassinadas em Pernambuco cresceu 21% entre 2015 e 2016. Compreender, acompanhar e tentar encontrar soluções para esta realidade, além dos números, tem sido uma das razões do projeto UmaPorUma, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. Mas, claro, algo precisa ou já deveria ter sido feito.

Porque só mapear tamanha barbárie poderemos estar apenas contribuindo com o risco de nos repetirmos sem nada no horizonte que sugira uma mudança de percurso. Significa dizer que os percentuais nada acrescentam a números absolutos que mostraram, por exemplo, que em janeiro nosso Estado registrou 28 assassinatos de mulheres e em março se sabia, pelo Monitor da Violência, que 83% dos assassinatos de mulheres do Grande Recife estavam sem inquéritos concluídos. A caminho, pois, das prateleiras de casos em aberto, uma antecipação da impunidade acumulada.

Reproduzir, pura e simplesmente, ano passa, novo ano chega, essa crônica de mortes previsíveis, é muito pouco. Parece uma tentativa inócua explicar esse universo tão complexo com a repetição de números mapeados ou mesmo escancarando escândalos como os 90 assassinatos de mulheres em Pernambuco, apenas nos quatro primeiros meses deste ano, quando não se percebe nenhum movimento, nenhuma ação destinada a mudar qualquer dessas categorias onde são enquadrados os crimes contra mulheres.

Comprometimento

Essa inércia deve nos levar à profunda reflexão sobre a ausência de comprometimento coletivo diante de uma deformação social que levou à criação de delegacias especificamente para mulheres e de um tipo penal doloso para constar no Código Penal como um grito de desespero e impotência.
Porque agravar a pena para quem mata uma mulher é muito importante, mas só isso não muda a realidade, assim como nada se apresenta para mudar o fato de que não se trata apenas de violência de gênero mas, também, de raça: o Atlas da Violência 2018 mostra que em 10 anos a taxa de homicídio de mulheres negras aumentou 15,4%, enquanto entre as mulheres não negras houve uma queda de 8%.

Deveria despertar o clamor coletivo a perspectiva de que o Atlas de 2019 dificilmente trará algo de novo, além de percentuais acrescidos, se nada se fizer para mudar a realidade não apenas de Pernambuco, mas de todos os Estados brasileiros. E mudar a realidade significa transformação profunda, estrutural, que não faz parte do cenário do País como está sendo visto e entendido hoje. Muito pelo contrário, as dificuldades tendem a persistir, processando a reprodução dos mesmos quadros de anos recentes, enquadrando feitos formais – como a criação das delegacias e de uma lei específica destinada a proteger as mulheres – como efeitos especiais incapazes de irem além do registro, da constatação de que pouco transformam se não forem vistos como objetos de uma radical revolução de costumes.

print